quarta-feira, 18 de março de 2009

Ética e Humanização na Saúde!

A melhora no atendimento na saúde pública tem sido uma preocupação constante dos governos em suas várias instâncias, sejam municipais, estaduais ou federais. Desde a minha dissertação de mestrado, cuja pesquisa foi desenvolvida em Antropologia da Saúde e da Doença, tenho procurado demonstrar as falhas nesse modelo chamado biomedicina, que apesar de todos os grandes avanços tecnológicos ainda se mantém aquém das expectativas dos usuários dos serviços médicos.
Um dos aspectos tratado na minha pesquisa é o processo de desumanização no atendimento, e coisificação do doente, preocupação que o próprio SUS (Sistema Único de Saúde) vem demonstrando desde o lançamento do HumanizaSUS. No entanto, não é só nos serviços do SUS que aparece esse processo de desumanização, de forma geral este é um problema decorrente de um modelo ultrapassado de atendimento à saúde, que ainda persiste.
A visão predominante no modelo biomédico, de que erradicar doenças é o mesmo que promover saúde, é o grande equívoco que está na gênese do processo de desumanização no atendimento. Este modelo é o responsável pela construção dessa postura que insiste em tratar o usuário de uma maneira impessoal, que transforma o paciente num “objeto” portador de males classificáveis objetivamente, onde a subjetividade do doente é desconsiderada.
São complexos os encaminhamentos que conduzem à saúde. Eles articulam várias lógicas, que não podem ser tomadas como se o biológico fosse o único determinante. A saúde, tal como foi definida pela Organização Mundial de Saúde “é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doenças”. Esta concepção rompe com a visão fragmentada, elevando a promoção saúde aos níveis biológicos, psicológicos e sociais, daí a necessidade da apregoada humanização.
Esse processo de humanização nos serviços públicos de saúde requer que os profissionais da saúde, em todas as suas instâncias, venham mudar as suas relações com o saber instituído, a medicina, e com o conjunto de atores sociais que lidam com a saúde, ou seja, os trabalhadores entre si e especialmente com os usuários do serviço. Se a técnica biomédica se constitui como parte importante em qualquer modelo de saúde, é preciso, contudo, considerar que o ser humano não é redutível a um objeto. A arte de curar não provém apenas da competência técnica, mecânica, fisiológica ou farmacológica. A prática terapêutica, para ser eficaz, deve respeitar o indivíduo em sua multidimensionalidade, em sua complexidade.
A humanização, passa entre outras coisas, pelo chamado “acolhimento” que se inicia com a recepção do usuário, responsabilizando-se integralmente por ele, ouvindo suas queixas, permitindo que ele expresse suas preocupações e angústias. É preciso assumir no serviço uma postura capaz de acolher, escutar e pactuar respostas mais adequadas aos usuários, colocando em ação o “acolhimento” como diretriz operacional.
Isso requer uma nova atitude, de mudança no “fazer” em saúde, “acolhimento” pressupõe mudança na relação entre profissionais de saúde/usuário a partir de parâmetros éticos, humanitários e de solidariedade. Requer o reconhecimento do usuário como sujeito e participante ativo no processo de produção da saúde. É uma ação que deve ocorrer em todos os locais e etapas da atenção a saúde. Não deve consistir numa mera triagem administrativa que pressupõe exclusão, nem se reduzir à recepção em um ambiente confortável. Acolhimento não é um espaço ou um local, mas uma postura ética.
Neste processo, a conscientização dos profissionais de saúde é fator fundamental para que se assuma essa postura ética, onde o atendimento ao usuário passe a ser visto como um direito deste e não como prática de caridade ou filantropia, postura que tem marcado os serviços de saúde pública no Brasil. Além disso, para a promoção da saúde, é necessário entender que existe um doente a ser tratado e não apenas uma doença a ser erradicada. (Ney Góes)